Caiu-me em mãos um livreto do Schopenhauer: A Arte de Escrever. Recomendação do meu irmão. Estou ainda a ler sobre a tal arte e longe de entendê-la ou executá-la, de maneira que estas palavras não tratarão do ofÃcio penoso que é escrever bem.
Chamou-me a atenção, todavia, breve nota do pessimista filósofo sobre aqueles a quem chamava eruditos, distinguindo-os dos gênios.
É de se notar o estranhamento que isso causa, logo de inÃcio: temos, todos nós, a mania de confundir ou tratar por sinônimos erudição e genialidade. Aquela ideia fixa de que, lendo lendo lendo aprende-se muita coisa. Ocorre-me aquela frase do Seu Madruga, “se quer ser alguém, que devore os livros!” E lá ia Chaves, literalmente, saborear a celulose do papel!
Schopenhauer diria, por absurdo que pareça que, dependendo do uso que se faz do livro a ser lido, melhor comê-lo realmente! Daria no mesmo. Porque ler assim, de maneira tão banal quanto se come ou se veste, não tem serventia alguma ou, pelo menos, serventia que seja nobre.
Nobreza, então, é o que diferencia o gênio do erudito, tal como o ouro da pirita. Você deve conhecer os eruditos. São muitas vezes professores, cientistas renomados, doutos conhecedores de n assuntos, onde n é quase sempre igual ao número de verbetes de uma enciclopédia. São os que, nas palavras de Schopenhauer, fazem uso do conhecimento como um meio, e não como um fim em si mesmo. Produzem um conhecimento de exposição de assuntos e pensamentos tratados e desenvolvidos por outras mentes, nunca pelas suas. São divulgadores da doutrina de um, ou atualizadores de obra de outro.
Outras vezes disfarçam-se melhor. Ganham respeito e admiração e influenciam gerações e gerações de estudantes e pensadores. O filósofo diz isso de Hegel, aquele sujeito impossÃvel de entender (e não me venham dizer que entenderam não! Não entender é axioma quando se fala de Hegel!). Não me é dada a propriedade para apontar o dedão pro tal do Hegel e dizer a ele “Vós não manjais picas”; é-me lÃcito, no entanto, criticar as figurinhas de meu tempo.
Muito triste, de fato, que no nosso mundinho moderno imperem essas autoridades. Que tomemos os argumentos delas como “verdade”, que tentemos provar “nossos” pontos – seja em tribunais, seja em discussões de boteco – com base nessas “verdades”. Tragédia nossa e do mundo que não sabe reconhecer quem realmente tem ou teve algo a dizer.
Já preconizava o filósofo que os verdadeiros gênios, por não se preocuparem com tÃtulos, honrarias, fama, dinheiro e sim com o compromisso para com a verdade e com o conhecimento, estariam fadados a uma vida modesta no esquecimento, salvo a sorte que eventualmente escolhe alguns poucos.
Refletindo sobre isso, ocorre-me a figura de um professor de minha faculdade, versado em lÃnguas, doutor em sua área, autoproclamado conhecedor de arte, de literatura, reconhecido internacionalmente. Li um pedaço de seu livro e algumas de suas aulas. Estas não menos lamentáveis que aquele. Ocorrem-me, ato contÃnuo, a vida em lamúria e solidão de Van Gogh, que em vida teria, dizem, vendido apenas um quadro, a um amigo piedoso. Recentemente, a pintura Os Girassóis foi vendida por 40 milhões de dólares…



















