
Inaugurando a Seção Nostalgia, que ressuscitará para você leitor as coisas do tempo do guaraná com rolha, um post todo especial sobre um dos maiores esportes infanto-juvenis (e por que não adultos, profissionais, ou quiçá olÃmpicos?) de todos os tempos: a bolinha de gude. Um pouco de história, curiosidades e uma tentativa de reunir as principais regras desse jogo milenar, em que cada participante pode usar a malandragem e modificar as normas. Nostálgico é pouco!
E lembrem-se: quando eu pegar minha matadeira vou rapecar todos vocês! Buarararará!
Esses dias estive pensando na minha infância. Aqui na pacata cidade onde vivo a molecada brincava de tudo: pião, taco, pega-pega, esconde-esconde, pipa e a tão supimpa bolinha de gude. Não havia muitas dessas diversões eletrônicas e jogos online, que apesar de bacanudos, nunca deveriam substituir completamente as boas e velhas brincadeiras que fazem criança ser criança. É triste ver a molecada de hoje crescer tão cedo na frente de computador, com celular na mão e indo pra shopping comprar cd de banda emo…
No meio dessa minha divagação eu comecei a pensar nas tais bolinhas de vidro e no jogo maluco no qual elas estão envolvidas. Reles mortais, eu não entendo como eu conseguia jogar bolinha de gude quando era criança! E explico. De todos os jogos folclóricos e esportes do mundo, estou pra ver um jogo com mais regras e mudança de regras do que o famoso jogo de búlica. De cidade para cidade, estado para estado e paÃs para paÃs, as regras mudam de acordo com o grupo que joga e a capacidade dos participantes de fazer os outros engolirem pseudo-regras feitas ali, na hora! IncrÃvel como isso fazia sentido quando eu era criança!
Lembro-me sempre. A gente ia jogar pra matar aquela bolinha leitosa novinha ou aquela bolinha brilhante japonesa, quando um maluco gritava “Sujis!”, e então jogava um monte de porcaria na frente do seu caminho até o seu singelo sonho infantil de consumo, só pra te sacanear. E o que você fazia em resposta? Nada meu amigo, absolutamente nada! Afinal, quem mandou ser manezão! Fosse malaco, já teria dito “Dou nada!â€, para que o outro pirralho não pudesse acabar com a sua jogada. E por mais estranho que soe hoje, todo mundo acabava concordando, como se fosse tão óbvio quanto um impedimento no futebol!
Não sei se em algum momento no tempo o jogo de bolinha de gude teve regras definidas, mas sei que ele é bem antigo. Tem suas origens nas antigas Roma e Egito, onde se costumava jogar com bolinhas de mármore. Dizem as más lÃnguas que até o imperador César Augusto dava suas escapadelas pra ver umas partidinhas! A bola de gude, ou ainda berlinde, bolÃndri, bulica, bolita, baleba, bilosca, biloca, birosca, bolita, buraca, búrica, bute, cabiçulinha, clica, firo, peteca, pirosca ou ximbra admite, além de uma infinidade de nomes e regras, várias modalidades de jogo diferentes, sendo os mais populares a buraca, o triângulo e o jogo do mata-mata.
E quem pensa que só criança joga, engana-se. Em 2007 teve Torneio Mundial, senhoras e senhores! Tá certo que o tal torneio só contou com as presenças de Inglaterra e Alemanha, mas eles chamaram assim ué! As partidas ocorreram num pub (!) e foram acompanhadas de muita cerveja (acho que o desempenho dos atletas foi caindo com o passar da noite). As regras eram bem complicadas e oficialmente definidas (um disparate na minha opinião, já que as regras da bulica são ORAIS, FEITAS NA HORA E COM EFICÃCIA IMEDIATA!).

Puxa, eu sempre volto a falar das regras mas, de fato, acho que elas são a principal memória de todos que já brincaram. Afinal, quem nunca inventou as suas pra levar a melhor num jogo? Ou saiu correndo atrás da turma da rua de trás quando um espertinho gritou “rapa tudo!â€, pegou todas as bolinhas e se mandou? Devido à importância da matéria e após muito estudo e pesquisa na internet, compilei, com hercúleo esforço e dedicação, o que orgulhosamente chamo de As Normas Fundamentais da Bolinha de Gude, minha simplória tentativa de identificar um padrão nos diversos modos de jogar esse jogo e mais que isso, uma contribuição para que a tradição se perpetue. Aqui vão a Regra de Ouro e os Seis Artigos Principais
Regra de Ouro: As regras são orais, têm efeitos erga omnes (contra todos os participantes) e eficácia imediata. Qualquer um dos jogadores tem autoridade para criar uma, a qualquer momento do jogo.
Art. 1º: A validade da regra dentro do sistema está condicionada a probabilidade de o adversário engolir a lorota.
Art. 2º: Toda regra que confere vantagem deve seguir rituais complexos. SEMPRE deve envolver uma certa quantidade de passos ou palmos meticulosamente contados, conferidos pelos adversários, que atestarão a justiça da contagem.
Art. 3º: Toda regra que segue os rituais do item anterior invariavelmente termina do lado da bolinha a ser “matadaâ€.
Art. 4º: Sempre que possÃvel, as regras devem ser expressadas no idioma oficial do jogo de bolinha de gude, o “Mussunêisis†(derivado de Mussum, aquele dos Trapalhões, saca?), de maneira que a regra deve conter sempre um “s†na última sÃlaba. Exemplos: volts, limps, troquis, sujis etc.
Art. 5º: Todas as regras que conferem vantagens podem ser substituÃdas pela regra “tudo†para que o jogador receba todas as vantagens, e “dou nadaâ€, para que o adversário fique na merda.
Art. 6º: Todos os jogadores devem abstrair o fato de que se existem as regras do “tudo†e “dou nadaâ€, todas as demais regras menores são irrelevantes.
Claro que, além das normas fundamentais que regem geralmente o jogo, nós temos também as regras favoritas, as mais utilizadas no dia a dia pelos jogadores como forma de obter vantagens, e são as seguintes:
Altus-barrancus ou simplesmente Alts: com essa regra, o jogador pode levantar o palmo para disparar a bolinha de uma altura maior. Muito usado nas situações em que a bolinha a ser “matada” encontra-se em altura superior (como se jogava bolinha de gude na rua, era comum que ela caÃsse da calçada pra rua…o altos-barrancus foi provavelmente inventado para subir a guia e voltar pra calçada).
Palmus-Canhão: ao invés de jogar normalmente, toma-se a bola entre o polegar e o indicador da mão esquerda e, pela parte de trás, dá-se um piparote arremessando-a como se fosse um tiro de canhão.
Cheguis ou Palmus: ação do indivÃduo de aproximar a mão da bola do adversário. O mesmo que gansa.
Dar corrida: arbitrar uma distância para a frente quando a bola acidentalmente é travada batendo no pé de um dos jogadores (e quando eu falo arbitrar, é arbitrar o mais próximo possÃvel do triângulo!).
Limps: limpeza do local em que se acha a bola do parceiro que pretendemos atingir.
Sujis: corruptela criada por algum malandro, na certa logo depois de um “limpsâ€. Na minha vila, era comum jogar todo tipo de porcaria na frente do caminho, incluindo pedras, mato e se não me engano, uma vez colocaram cocô na frente de um coitado…
Muds: podia mudar de lugar para se posicionar num ângulo melhor.
Não vale carregão: era proibido lançar a bolinha mexendo o braço (carregando). Troques: podia trocar a bolinha com outra. Isso era muito usado pra substituir uma bola leve por uma pesada, difÃcil de tirar do lugar.
Não dou risca: não podia fazer uma risca para acertar a bolinha.
Scaps ou Volts
com essa regra, o malandro pegava a bolinha que caiu da mão e jogava de novo.
Palmo dentro do triângulo: essa aqui permitia que se colocasse a mão dentro da área do triângulo pra matar as bolinhas.
Bolinha perdida: Quando uma bolinha caia no mato, alguém gritava isso e saÃa correndo pra encontrar a bolinha. Quem achasse ficava com ela.
Duas uma é minha: Pilantragem total. O cara teve sorte e tirou duas bolinhas numa jogada só? Grite isso e fique com 50 % do talento alheio!
Tires: Quando era pra tirar a bolinha da frente.
Quero tudo e não dou nada: ou seja, quem pedisse primeiro poderia se utilizar de todas as manobras acima, impedindo que o adversário fizesse o mesmo.
Porém a pior de todas era:
Colheita minha ou rapa tudo: pegava-se todas as bolinhas (arrastão) e saÃa correndo! É, geralmente dava briga…
Bom, acho que é isso, já matei minha saudade…pra fechar, umas fotos e um videozinho mostrando a fina arte de se fabricar as nossas queridas redondinhas:

postado por: Mxyzptlk

















Comentários
Tudis nessa sua matéria, muito loka hehe!!!!
Foda!
Um dos melhores posts que eu já vi na vida!
Kra, muito bom o posi, naum me lembrava das regras…..um sarro!
aqui na minha vila a gnt jogava e sempre saia briga por causa da malandragem alheia…só que os mais velhos sempre se davam bem pq peitavam a mulecada e diziam que a regra não valia. Acho q esse é o único freio para a invenção de regras, hahahahaha
Eu lembro que tinha bem mais regras…será que a galera lembra d algumas mais aÃ?
Parabéns pelo post, tá muito bom!
Ótima matéria! Ainda me recordo dessas miraculosas saÃdas para evitar o acerto da bolinha pelo adversário!
E quando a turma se reunia pra ficar duas horas pisando na bolinha pra ela ficar bem áspera pra ela não escorregar!!! Aà diminuÃa a chance de vc ter q pedir um “volts”!!!!!!!!!!!!!!!!!1
Bem lembrado Juanito, quando jogava bolinha de gude as regras dos mais velhos sempre valiam e as nossas não, pois eles nos peitavam e se houvesse algum engraçadinho acabava tomando porrada.Hehehe.
lembro uma vez que eu estava quase para matar a bolinha de um pivete e ele me grita altus barrancus, eu nunca tinha ouvido isso até aquele dia, aà o mano vai e me coloca um tijolo baiano entre mim e a bolinha. Fiquei com raiva, xinguei, falei que aquela merda não existia, mas ele parecia tão certo da regra que acabei caindo na lorota. Resultado, perdi aquela bosta de jogo
Muito bom, algumas adições:
Tudo/Nada Bolives: Permissão ou proibição para atingir mais de uma bolinha na mesma jogada
Tudo/Nada Jeitis: Permissão ou proibição de rotacionar, como um vetor, a posição da bolinha de origem mantendo a mesma distância da bolinha alvo.
Tudo/Nada Busquidesça: Permissão ou proibição para empurrar a bolinha como se estivesse em declive, ou remover algum objeto que impedisse o movimento em declive.
Tudo/Nada Busquisuba: Permissão ou proibição para empurrar a bolinha como se estivesse em aclive, invertendo a regra anterior.
Boza a Minha Morre a Tua: Utilizada no jogo de búrico, búlico ou buraco, quando se coloca a bolinha próximo ao buraco. Se algum adversário bater e derrubar esta bola no buraco, perde o jogo.
Aleluia: Pegava as bolinhas em jogo e jogava para cima. Quem catasse era dono.
E a Bróca
?? Que a gente fazia com o calcanhar
??
Muito legal a matéria, amigo!!!!
grande abraço…
moso quanto vc 50 bolinhas degude da colorida pufavor vende para mim fezendo favor
quanto vc vende 60 bolinhas de gude para mim fazendo favor vende para mim
Sou estudante de psicologia, adorei o texto.
Estou fazendo uma pesquisa sobre as bolinha de gude e as histórias que elas contam…uma vez que este objeto se subjetiva em cada contexto social inserido. Se alguém tiver mais alguma informação, texto, imagem sobre este brinquedo por favor envie-me o material
obrigada.
email= nanabrasile (arroba) yahoo (ponto) com
FLASHBACK TOTAL, voltei no tempo para a hora do recreio e a BULICA rolava a toda! Parabéns pela matéria!
em primeiro lugar meus parabens, muito valiosa sua orientação sobre o jogo e as regras, realmente quando criança brinquei muito de bolinhas de gude, (triangolo, mata mata, birosca etc.) (boco era o nome dado aqui, um buraco no chão a linha de saida, o primeiro que acertar o buraco começa a contar 3,6,9,12 e 15, clicar no adeversário para eliminar e ganhar as quantidade de bolinhas apostada, belas lembranças), hoje tenho 44 anos e sou apaixonado por bolinhas de gude, meu artesanato e feito por bolinha de gude e cola, varia peças com um efeito visual maravilhoso, como abajur, lustre, piramides etc. Sujestão: o que mais me chama atenção e a premeação, os troféis não são feitos de bolinha de gude, que e uma pena. meu ORKUT (djtitoabreu@hotmail.com) confira, bolinha de gude não e só esporte e arte tambem.
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